Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

12.9.06

Estrada da Vida


A seguinte comparação nos faz melhor compreender as peripécias da vida da alma.
Suponhamos uma longa estrada, em cujo percurso se encontram, de distância em distância, mas com intervalos desiguais, florestas que é preciso atravessar.
Na entrada de cada floresta, a estrada larga e bela é interrompida e só na saída é que continua.

Um viajante segue por aquela via e chega à primeira floresta; aí, porém, não encontra caminho, mas um décalo, onde se perde.
A claridade do sol não penetra a espessa abóbada formada pelas árvores; ele caminha sem rumo; porém, afinal, depois de inauditas fadigas, chega aos confins da mata, mas chega alquebrado pelo cansaço, com as carnes rasgadas pelos espinhos, os pés feridos pelas pedras.
Ali torna a encontrar o caminho e a luz, e prossegue em sua marcha tratando de curar-se das feridas.
Mais longe depara com a segunda floresta, onde o esperam as mesmas dificuldades; já tem, porém, um pouco de experiência e rompe o matagal sem ferir-se muito.
Noutra, encontra um lenhador, que lhe indica a direção a seguir e o impede de perder-se.

Daí por diante, aumenta a sua habilidade, os obstáculos são mais facilmente vencidos e, seguro de encontrar na saída o caminho desbravado, alenta-se com esta confiança. Finalmente, já possui a precisa orientação para achá-lo.
O caminho termina no cume de alta montanha, de onde ele distingue toda a caminhada que fez, desde o ponto de partida, assim como vê as florestas que atravessou e recorda as vicissitudes porque passou.
Essa recordação, porém, não lhe é penosa, visto como já chegou ao fim da viagem; é como o velho soldado que, na calma do lar doméstico, recorda as batalhas a que assistiu.


As florestas esparramadas pelo caminho são para ele pontos negros numa fita branca; diz: — "Quando estava ali, principalmente na primeira, como me pareciam longas!
Parecia-me que não chegava ao fim; tudo era gigantesco e inextricável em torno de mim. E quando penso que, sem aquele bom lenhador que me ensinou o caminho, ainda andaria hoje por lá!
Mas agora, que as contemplo daqui, como me parecem pequenas aquelas florestas, tão pequenas, que me bastariam alguns passos para as poder atravessar! E quanto mais as contemplo e lhes reparo nas minúcias, mais falso me parece o juízo que fiz delas".

Aparece-lhe então um velho, que lhe fala assim:

— Filho, eis-te no termo da viagem; mas o repouso indefinido causar-te-ia brevemente mortal enjôo e far-te-ia ter saudades daquelas vicissitudes porque passastes e que davam atividade ao corpo e à alma.
Vês daqui um sem número de viajantes no caminho que percorreste, os quais, como tu, correm o perigo de perder-se.
Tens a experiência, nada mais temes; vai procurá-los e esforçar-te por guiá-los com os teus conselhos, a fim de que cheguem mais cedo.

— Com sumo gosto — responde o homem — mas qual a razão de não haver um caminho reto do ponto de partida até aqui? Isso pouparia aos viajantes o incômodo de atravessar aquelas abomináveis florestas.

— Filho — torna-lhe o velho — pensa bem e verás que muitas são as pessoas que as evitam; aquelas que, tendo já adquirido a necessária experiência, sabem escolher um caminho mais direto e mais curto; essa experiência, porém, é o fruto do trabalho durante as primeiras travessias, de maneira que eles não vêm ter aqui senão por obra de seus méritos.


Que seria de ti se não houvesse experimentado? A atividade que precisaste desenvolver, os recursos de imaginação que te foram precisos para abrires o caminho, aumentaram-te os conhecimentos e desenvolveram-te a inteligência. Sem isto ainda serias tão insciente como no dia da partida. E, ainda, esforçando-te por vencer os impecilhos, contribuistes para o melhoramento das florestas, que atravessastes.
O que fizeste é pouco, é imperceptível; mas pensa nos milhares de viajantes que têm feito outro tanto e que, trabalhando para si, trabalham sem que o saibam, pelo bem comum.
Justo é que recebam o "salário" do trabalho, no descanso que aqui gozam. Que direito haveriam a esse descanso se nada tivessem feito?

— Meu pai — responde-lhe o viajante — em uma destas florestas encontrei um homem, que me disse: "Há ali um abismo, que é preciso vencer de um salto; mas, entre mil viajantes, só um o transpõe, os outros caem no fundo duma fornalha ardente e ficam perdidos sem remissão". Eu, porém, não vi tal abismo.

— Não existe o abismo, meu filho; a não ser assim, seria uma cilada abominável armada aos viajantes, que vêm à minha casa. Bem sei que muitas são as dificuldades por vencer; mas sei também que cedo ou tarde as vencerão.

— Se eu tivesse criado impossibilidades para um só homem que fosse, sabendo que ele sucumbiria, teria praticado uma crueldade; quanto mais se as tivesse criado para tantos. Esse abismo é uma alegoria, cuja explicação vou dar-te. Olha para a estrada, no intervalo das florestas; entre aqueles que por ela transitam vês uns que marcham lentamente com ar alegre, vês aqueles amigos que se perderam de vista no labirinto, como são felizes de se encontrarem na saída; mas, ao lado deles há outros que se arrastam penosamente; estão estropiados e imploram a piedade dos transeuntes, porque sofrem cruelmente das feridas que, por culpa sua, fizeram através dos espinhais; serão curados e isto lhes servirá de lição para quando tiverem de atravessar nova floresta, da qual sairão menos contundidos.


— O abismo é a figura dos males que sofrem, e dizendo que em mil só um o vence, o homem teve razão, porque infinito é o número dos imprudentes. "Enganou-se" porém ao afirmar que uma vez caído, ninguém "é capaz de se levantar". Há sempre uma saída para aqueles que querem vir a mim.
Vai, meu filho, vai ensinar a saída aos que estão no fundo do poço; vai alentar aqueles que se estão ferindo no trajeto,
vai ensinar o caminho àqueles que estão atravessando a floresta.
(60)

As coisas mais simples tornam-se assustadoras quando ignoramos as causas.

Não se toca mais o tambor para acordar os soldados, quando eles já se levantaram
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Allan Kardec


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(60) Esta imagem das florestas sucessivas é um recurso didático de Kardec servindo-se da sua experiência de professor. Assim como o mito do véu no O Livro dos Espíritos (item 222) lembra o mito da caverna em A República de Platão, esta imagem das florestas lembra a selva oscura de Dante logo no início da Divina Comédia: Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura / chi la diritta via era smarrita. Ou seja: Em meio ao caminho da nossa vida / encontrei-me numa selva escura / que perdida ficara a via certa. Note-se o dogma da perdição em perfeita consonância nos dois trechos, mas em Kardec explicado como perdição temporária.


Imagens: encontradas na net.

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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"