Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

8.2.10





"Aprendi com a primavera a me deixar cortar.
E a voltar sempre inteira."




Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...





Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...




Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e,
de outro, esquecimento.




Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.E então serás eterno.




O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...





Poemas de Cecília Meireles.


Manuel Bandeira, sobre Cecília Meireles e sua poesia.

Concha, mas de orelha;
Água, mas de lágrima;
Ar com sentimento.
Brisa, viração.
Da asa de uma abelha.

Cecília, és tão forte
e tão frágil.
Como a onda ao
termo da luta.
Mas a onda é
água que afoga:
Tu, não, és enxuta.

3.2.10

Mário Quintana

Mario Quintana




É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.







Os poemas são pássaros
que chegam não se sabe de onde
e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro,
eles alçam vôo como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto
alimentam-se um instante
em cada par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...







13.12.09

Educar

14.9.09

Emily Dickinson, Um Livro de Horas




Emily Dickinson

Um livro de horas

Seleção e tradução de Angela Lago
Editora Scipione, 2008

Hora do Ofertório



Isto é tudo que tenho para oferecer.
Isto, e meu coração também.
Isto, meu coração, o campo, e além.
Toda a campina selvagem.
Trate de contar - se eu esquecer.
A soma alguém deve saber -
Isto, e meu coração, e as abelhas todas
Que vivem na folhagem.



Hora Pequenina


Ninguém conheceria esta rosa pequenina,
Talvez uma peregrina,
Não fosse eu apanhá-la no caminho
Para te oferecer.
Só uma abelha terá saudade.
Só uma borboleta, bailarina,
A procurar um colo pela tarde.
Só um pássaro atento,
Só um suspiro do vento.
Ah, rosa pequenina, tão fácil sina,
Alguém como você morrer!



Hora de Esquecer


Coração, vamos esquecê-lo!
Você e eu, nesta tarde!
Esqueça o calor que ele deu,
Que esqueço a luminosidade.
Quando acabar, avise, por favor,
Para que eu apague o pensamento!
Rápido! Enquanto você pulsar,
Vou lembrar mais um momento.



Hora do Enigma


Algumas coisas que voam:
Pássaro, abelha, hora.
Não canto nenhuma agora.
Algumas coisas que ficam:
Dor, montanha, eternidade.
Não tenho necessidade.
Mas outras que ficam, voam.
Os céus eu posso explicar?
Imóvel - o enigma no ar!



Hora Sem Luz


Existe mesmo o amanhã?
Há alguma coisa como o dia?
Se eu fosse alta como a montanha
Mais além a enxergaria?
Terá pé feito açucenas?
Como um pássaro, terá penas?
Vem de um famoso lugar
De que eu nunca ouvi falar?
Marinheiro!
Estudante!
Grande sábio de algum clã!
Alguém conte à pequena viajante
Onde fica o lugar chamado amanhã.



Hora da Tristeza Sem Razão


A abelha - de mim - não tem medo,
A borboleta eu conheço.
A gente toda da mata
Se alegra quando apareço.
Os rios riem mais alto assim que eu chego.
E brinca a brisa mais louca então.
Ai meus olhos, por que tua névoa prata?
Por quê , ô dia de verão?



Hora de Suportar


Nossa porção de noite suportar,
Nossa porção de amanhecer também.
Nosso vazio, com êxtase ocupar.
Ou ao nosso vazio, o desdém.
Uma estrela aqui, outra ali.
Alguma se extravia.
Aqui névoa, névoa além,
Depois, dia!



Hora da Dor


Água, é a sede que ensina.
Terra, a travessia do mar.
Êxtase, a agonia.
Paz, o guerrear.
Amor, o retrato eterno,
Pássaros, o inverno.



Hora do Amor


Vem devagar, Jardim!
A boca desacostumada,
Ruborizada, bebe jasmim
Feito abelha embriagada.
Que a flor alcança tarde,
Ao redor do quarto arde,
Néctar, néctar - roga.
Entra, e em bálsamo se afoga.



Hora da Paixão


Diminutos rios - dóceis a algum mar azul.
Meu Cáspio - tu.



Hora do Cuidado


Tinha nos dedos um anel
E fui dormir.
O dia quente, o vento ao léu.
Pensei: - Não vai sumir.
Acordo, e meus dedos honestos desdenho.
A jóia, perdi de vista.
Agora, tudo que tenho
É uma saudade ametista.



Hora desta Carta


Todas as cartas que eu escrever
Não serão bonitas assim:
Sílabas de veludo,
Frases de cetim,
Abismos de rubi, submersos.
Impossíveis, ô lábio, para ti.
Faz de conta ser um colibri
Que sorveu a mim.


Hora Em que me Chamarem de Louca


Muita loucura é sabedoria divina
Para um olho inteligente.
Muita sabedoria, pura loucura.
Mas, como sempre,
A maioria domina:
Se você concorda, é boa gente.
Se nega, um perigoso sem cura.
Melhor prender com corrente.



Hora de Saber de Deus


O pensamento é maior que o céu.
Coloque lado a lado os dois:
O céu cabe no pensamento,
E ainda cabe você depois.
Mais do que o mar, o pensamento é profundo.
Azul mais azul pode abarcar.
O pensamento sorve o mar em um segundo,
Como a esponja sorve a gota que entornar.
Tem o peso de Deus o pensamento,
Grama a grama, lá e cá.
Se for diferente - esteja atento -
Como sílaba o som será.



Hora Sem Remédio


Dizem: - Com o tempo passa.
Mas não passa, na verdade.
Sofrimentos enrijecem como tendões, com a idade.
Tempo testa o sofrimento,
Mas não é o seu remédio.
Se passa ao passar do tempo,
Não havia enfermidade.



Hora em que Tudo Parece sem Sentido


Seu eu aparar, antes que quebre, um coração.
Minha vida não foi em vão.
Se a uma dor oferecer um vinho
Se assoprar uma ferida,
Se ajudar um passarinho
Que caiu de volta ao ninho,
Não foi em vão minha vida.



Hora Preciosa


A natureza quase não usa amarelo,
Sempre escolhe outro matiz.
Guarda essa cor para o pôr-do-sol
E desperdiça anis.
Carmim, gasta feito mulher,
Mas sonega o amarelo.
Precioso e raro o quer
Como a palavra - elo.



Hora da Alegria


Alegria é um vento
Que nos levanta do piso
E nos deixa em outra parte,
Um lugar em desaviso.
Não traz de volta, voltamos,
Sóbrios, depois de um tempo.
Novatos para uma tarde
Na terra do encantamento.



Hora da Verdade


Fale a verdade toda, mas fale de viés.
No rodeio está o sucesso.
Para nossa frágil felicidade,
A surpresa da verdade brilha em excesso.
Como o raio que, por bondade,
Alguém explica à criança que se assusta,
Deve brilhar pouco a pouco a verdade,
Ou todos seremos cegos à sua custa.



Hora da Falta


Se não tivesse visto o sol
A sombra eu suportaria.
Mas essa luz fez do meu deserto
Um deserto que antes não conhecia.



Hora do Temor


Silêncio é tudo que tememos.
Na voz há resgate.
Mas silêncio é infinidade.
Não tem face.



Hora da Esperança


Sem saber quando virá o amanhecer
Eu abro todas as portas.
Terá asas como um pássaro,
Ondulará como as encostas?



Hora do Coração na Mão


O Paraíso é tão longe
Quanto o quanto mais perto
Se nesse quarto se aguarda
Felicidade ou deserto.
Forte é o coração
Que suporta
O estalido
De um passo na porta.



Hora da Promessa


Moço de Atenas, seja fiel apenas
A você
E ao mistério.
Outro alento é falso juramento.



Hora de Esquecer


Coração, vamos esquecê-lo!
Você e eu, nesta tarde!
Esqueça o calor que ele deu,
Que esqueço a luminosidade.
Quando acabar, avise, por favor,
Para que eu apague o pensamento!
Rápido! Enquanto você pulsar,
Vou lembrar mais um momento.



11.9.09

Como Queiras, Amor...



Como Queiras, Amor...





Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.





Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'



1.8.09

Todas as Cores - |ßiå|™



 


Todas as Cores

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Olha, meu amor!
Essas são as flores
que em teus campos colhi.
São flores de múltiplas cores
Pra que lembres o tanto
Que gosto de ti!
Guarde-as em bom lugar!
Não tão perto que as sufoque,
Nem tão longe que não as veja!
Regue-as com o calor de teu toque
e com um amor que as proteja!
Haverão de retribuir-te
toda a atenção recebida.
Multiplicar-se-ão em minha arte!
Serão parte da tua vida...
Porque ontem fui grão...
depois ramo...depois flor
que perfuma sem espinhos...
Hoje...do amor em flores
não sou uma, mas todas as cores em teu caminho.


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Poema ©Beatriz Araujo

creations by Angels Design


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17.5.09

Cecília Meireles (Epigrama)

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I

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.

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II

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.

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III

Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas...
Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.

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IV

O choro vem perto dos olhos
para que a dor transborde e caia.
O choro vem quase chorando
como a onda que toca na praia.

Descem dos céus ordens augustas
e o mar chama a onda para o centro.
O choro foge sem vestígios,
mas levando náufragos dentro.

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V

Gosto da gota d'água que te equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.
Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato.
E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do ato.

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VI

Nestas pedras caiu, certa noite, uma lágrima.
O vento que a secou deve estar voando noutros países,
o luar que a estremeceu tem olhos brancos de cegueira,
- esteve sobre ela, mas não viu seu esplendor.

Só, com a morte do tempo, os pensamento que a choraram
verão, junto ao universo, como foram infelizes,
que, uma lágrima foi, naquela noite a vida inteira,
- tudo quanto era dar , - a tudo que era o por.

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VII

A tua raça de aventura
quis ter a terra, o céu, o mar.
Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.

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VIII

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que era nuvem, depus minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

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IX

O vento voa,
A noite toda se atordoa,
A folha cai.
Haverá mesmo algum pensamento
Sobre esta noite? Sobre o vento?
Sobre esta folha que se vai?

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X

A minha vida se resume,
desconhecida e transitória,
em contornar teu pensamento,

sem levar dessa trajetória
nem esse prêmio de perfume
que as flores concedem ao vento.

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XI

A ventania misteriosa
passou na árvore cor de rosa
e sacudiu-a como um véu,
um largo véu, na sua mão.

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.

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XII

A engrenagem trincou pobre e pequeno inseto.
E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida.
Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?
Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada mas partida?

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XIII

PASSARAM os reis coroados de ouro,
e os heróis coroados de louro:
passaram por estes caminhos.

Depois, vieram os santos e os bardos.
Os santos, cobertos de espinhos.
Os poetas, cingidos de cardos.
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Narciso, foste caluniado pelos homens,

por teres deixado cair, uma tarde, na água incolor,
a desfeita grinalda vermelha do teu sorriso.

Narciso, eu sei que não sorrias para o teu vulto, dentro da onda:
sorrias para a onda, apenas, que enlouquecera, e que sonhava
gerar no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso,

a estátua de cristal que sobre a tarde, a contemplava,
florindo-a para sempre, com o seu efêmero sorriso...

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Entre o desenho do meu rosto
e o seu reflexo,
meu sonho agoniza, perplexo.

Ah! pobres linhas do meu rosto,
desmanchadas do lado oposto,
e sem nexo!

E a lágrima do seu desgosto
sumida no espelho convexo!

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Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

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Pelo arco-íris tenho andado.
Mas de longe, e sem vertigens.
E assim pude abraçar nuvens,
para amá-las e perdê-las.

Foi meu professor um pássaro,
dono de arco-íris e nuvens,
que dizia adeus com as asas,
em direção às estrelas.

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A serviço da Vida fui,
a serviço da Vida vim;

só meu sofrimento me instrui,
quando me recordo de mim.

(Mas toda mágoa se dilui:
permanece a Vida sem fim.)

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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"