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"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

19.9.06

As mulheres querem lingerie

A idade não protege você do amor,
mas o amor, de alguma forma,
protege você da idade.

Jeanne Moureau



“As mulheres precisam de roupa de baixo,
mas querem lingerie.”


Essa frase do presidente da Victoria’s Secret abria uma grande matéria na revista Forbes. “Ele deve conhecer o assunto, já que tem seiscentas lojas e uma companhia com um catálogo de vendas de dois bilhões de dólares para respaldar tal afirmativa”, pensei. De alguma forma, hoje posso atestar que isso é verdade.

Estava em um shopping center em Cleveland fazendo hora antes de ir a um lançamento de livro e passei numa loja da Victoria’s Secret. Entrei, olhei as peças, a endedora ofereceu ajuda. Enquanto conversávamos, a moça me contou que a loja começara como um lugar onde um homem poderia comprar lingerie para agradar a uma mulher. Agora, o objetiva era
conquistar as mulheres que quisessem agradar a si mesmas – que desejassem se sentir bonitas e sensuais.
Enquanto falávamos, percebi uma senhora vestida de forma conservadora que entrou devagarinho na loja, com um deliberado ar de dignidade. Examinou as peças delicadas nas prateleiras. Sentia as texturas dos tecidos de vez em quando. Dispensando a ajuda da vendedora, a senhora saio da loja. Quando eu saí, vi que ela estava em frente à vitrine, olhando atentamente a lingerie exposta.

Uma hora depois, passei novamente no corredor e vi a mulher no mesmo lugar, em pé, enxugando os olhos com um lenço. Chorando.

- Desculpe não pude deixar de perceber a sua aflição. Está tudo bem?
- Não, não estou bem. Estou apaixonada. – E ela me contou a sua história, do jeito que as pessoas só fazem com quem não conhecem.

Era uma viúva de setenta e dois anos. Filhos criados, netos. E tudo mais.

Num impulso, fora à festa de comemoração de cinqüenta anos de formatura da sua antiga turma de faculdade, em St. Louis. E ele estava lá. O homem por quem fora apaixonada naquela época. Completamente apaixonada. Sua família proibira o casamento por considerá-lo de classe inferior, segundo seus padrões. Ela fora enviada à Costa Leste para terminar o curso. Não teve mais notícias e alguém lhe dissera que ele havia morrido na guerra.

Mas lá estava ele. Tivera uma próspera carreira no ramo de seguros, se casara, tivera filhos e agora estava viúvo. E ainda era muito alinhado. Além do mais, ele fora à reunião na tentativa de encontrá-la. “Buá” (estou repetindo a senhora). Parecia que o tempo não tinha passado.

Eles conversaram, riam, dançaram, beberam um monte de ponche e acabaram um nos braços do outro, se beijando. ”Beijando”(estou de novo repetindo). A parte do beijo a deixou nervosa. A senhora contou que estava sentindo coisas que não sentia há muito tempo.
Quando ele fez alguns movimentos, sugerindo que iria além do beijo, ela se afastou. Uma parte dela dizia que já estava muito velha para aquele tipo de coisa. Mas uma outra parte dizia que a verdade era que sua roupa de baixo é que estava velha de mais para este tipo de coisa.

Ela foi para casa. Trocaram cartas. Conversaram pelo telefone. Decidiram que a vida era curta de mais para ser desperdiçada e que deveriam passar um fim de semana juntos. Ela o convidou para ir a Oberlin, Onde morava. Ele chegaria na Sexta-feira. Então ali estava ela, num shopping elegante, soluçando do lado de fora da loja da Victoria’s Secret. Não estava se sentindo nem bonita nem sexy, mas velha e boba.

Não posso contar como essa história terminou realmente – muito menos que acontece no fim de semana em Oberlin. Não é da minha conta. Mas posso dizer que o senhor de St. Louis pode, mais cedo ou mais tarde, ter uma surpresa.
Ela não vai contar a ele que um estranho a encontrou chorando em frente à vitrine da Victoria’s Secret, a pegou pelo braço e entrou na loja. Ou que esse estranho disse à vendedora que sua tia precisava de uma lingerie bonita para uma amiga que tinha mais ou menos o mesmo corpo que ela, que tal amiga estava apaixonada, mas tinha vergonha de ir à loja. Não, o conjunto preto feito para seduzir falaria por si.

Quando as mulheres precisam de roupa de baixo, mas querem lingerie, a idade não devia jamais ser um problema. A senhora podia não ser tão jovial quanto antes, mas se sentia atraente, pelo menos mais uma vez, como nunca fora.
Por que querer viver tanto tempo a não ser que coisas assim sejam possíveis?
Robert Fulghum


Imagens: Getty Imagens

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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"