Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

21.11.06

Permissão para chorar.





Acima de tudo, dê valor ao amor que recebe.
Ele vai sobreviver por muito tempo depois
que sua riqueza e sua saúde tiverem acabado.

Og Mandino


Imagem: AD



Sozinho, sentado à mesa de jantar, o resto da casa às escuras, comecei a chorar.
Finalmente tinha conseguido colocar os dois meninos na cama.
Pai solteiro há pouco tempo, tinha de ser pai e mãe para meus filhos.
Dera banho nos dois, com suas risadas de prazer, corridas malucas pela casa, gargalhando e jogando coisas um no outro. Mais ou menos acalmados, deitaram para eu fazer em cada um os prescritos cinco minutos de massagem. Peguei, então, o violão e comecei meu ritual noturno de músicas folclóricas, terminando com a favorita dos dois meninos. Cantei-a repetidamente, reduzindo aos poucos o ritmo e o volume até que estivessem aparentemente dormindo.
Recentemente divorciado, com a custódia dos filhos, estava determinado a lhes proporcionar uma vida doméstica a mais normal e estável possível. Para eles, estava sempre feliz. Tentava, ao máximo, manter as atividades costumeiras sem muitas alterações. Esse ritual noturno sempre acontecera. A única diferença é que agora a mãe estava ausente. Eu conseguira realiza-lo mais uma vez: outra noite concluída com sucesso
.


Imagem: AD


Eu me levantei devagar, cuidadosamente, tentando não fazer nenhum barulho que pudesse despertá-los, pedindo mais canções e mais histórias. Saí do quarto na ponta dos pés, fechei a porta até a metade e desci as escadas.
Sentado à mesa de jantar, joguei-me na cadeira, ciente de que era a primeira vez, desde que chegara em casa do trabalho, que conseguia me sentar. Tinha cozinhado e servido o jantar aos meninos, batalhando para que comessem. Tinha lavado a louça ao mesmo tempo em que tentava lhes dar a atenção que exigiam. Ajudara o mais velho com o dever de casa. Tinha elogiado os desenhos do mais novo e exclamado ohs! De admiração com sua elaborada construção com os blocos de Lego. O banho, as histórias, as massagens nas costas, as canções, e agora, finalmente, um pequeno momento só para mim. O silêncio era um alívio, por enquanto.


Imagem: AD


Então tudo se acumulou em mim: a fadiga, o peso da responsabilidade, a preocupação com as contas que não tinha a certeza de poder pagar naquele mês. Os detalhes infindáveis do dia-a-dia de uma casa.
Até a pouco tempo estava casado e tinha alguém para dividir essas tarefas, essas contas e essas preocupações.
E a solidão. Eu me sentia como se estivesse no fundo de um grande mar de solidão. Tudo aquilo vinha junto e eu estava completamente perdido, indefeso. Comecei a chorar, inesperada e convulsivamente. Fiquei ali, em silêncio, soluçando.
Bem nessa hora um par de bracinhos me rodeou pela cintura e um rosto me examinou com atenção. Olhei para a carinha simpática do meu filho de cinco anos.
Fiquei envergonhado por meu filho me ver chorando.
- Desculpe, filho... não sabia que você ainda estava acordado.
Não sei por que isso acontece, mas tantas pessoas se desculpam quando choram, e não sou exceção.
- Eu não queria chorar. Desculpe. Estou um pouco triste hoje.
- Tudo bem, papai. Não tem problema chorar, você é apenas uma pessoa.
Não posso descrever como me deixou feliz aquele garotinho que, com a sabedoria da inocência, me deu permissão para chorar. Parecia que estava dizendo que eu não tinha de ser sempre forte, que às vezes podia me permitir ser fraco e demonstrar meus sentimentos.
Ele deslizou para o meu colo e ficamos abraçados, conversando um pouco. Eu o levei de volta para a cama e o ajeitei entre as cobertas. De alguma forma, eu também consegui dormir naquela noite.
Hanoch McCarty


Imagem: Maurizio Moro1


O Pai não é somente aquele que fecunda, mas o que nos adota como filho.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home

No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"