Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

26.7.06

Conversa Intíma

ouvindo


-(...) E então você não quis mais nada disso.
E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente.
Apenas parou e nada encontrou além disso.
Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta.
Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri.


Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória.
Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar.

Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira.
Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.
Não somos amado, acima de todas as coisas.

Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoados de coisas e seguranças por não termos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.

Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda.
Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.

Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa.
Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.


Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta. (...)


Extraído de"Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres" - Clarice Lispector.

1 Comments:

Anonymous Anônimo diz...

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»

10:55 PM  

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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"