Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

14.12.06




Por Lama Chagdud
Tulku Rinpoche






Introdução


A morte e o morrer são assuntos que evocam emoções tão profundas e perturbadoras que nós normalmente tentamos viver negando a morte, ainda que possamos morrer amanhã, completamente despreparados e indefesos. O momento da morte é incerto, mas a verdade da morte não é. Todos aqueles que nascem certamente morrerão.

As pessoas freqüentemente erram ao serem frívolas sobre a morte e pensam, "Ó, bem, a morte acontece com todo mundo. Não é nada demais, é natural. Estarei bem."

Essa é uma boa teoria, até que se esteja morrendo. Então, a experiência e a teoria divergem. Ficamos impotentes e tudo o que é familiar é perdido. Então, somos esmagados por uma grande turbulência de medo, desorientação e confusão. Por esta razão, é essencial nos prepararmos bem, antes do momento em que a mente e o corpo se separam.

Há muitos métodos, extraordinários e ordinários, para nos prepararmos para a transformação da morte. O maior desses métodos resulta em iluminação no tempo de vida da pessoa. A realização iluminada está além da vida e da morte, mas requer uma prática meditativa impecável.

Se a iluminação além da vida e da morte não é consumada durante o tempo de vida da pessoa, a transição da morte em si oferece outra oportunidade suprema de alcançarmos a iluminação. Mas, novamente, realizar o potencial dessa oportunidade depende de termos obtido maestria em certas perícias meditativas.

A iluminação é a mais alta realização da transição da morte, mas não é a única. Se tivermos desenvolvido o poder da oração, ainda que a realização meditativa esteja incompleta, pode haver liberação num ambiente de perfeita bem-aventurança, livre de sofrimento, ao invocarmos a benção de seres iluminados de sabedoria.

Para consumarmos as perícias meditativas e o poder necessário para dirigirmos nossa mente durante a morte, precisamos aprender sobre a relação da vida com a morte, sobre o processo da morte e sobre as transições do momento da morte até o renascimento. Desse modo, nos familiarizamos com a morte e não somos pegos de surpresa assim que o processo começar a se desdobrar.

Alertados sobre um furacão, não esperamos até que a tempestade avance ao o litoral antes que comecemos a nos preparar. Do mesmo modo, sabendo que a morte está chegando, não devemos esperar até que ela se apodere de nós antes de desenvolvermos as perícias de meditação necessárias para atingir o grande potencial da mente no momento da morte.


* * *



A morte, juntamente com o nascimento, a doença e a velhice, são as quatro aflições básicas da condição humana. Elas são óbvias e inescapáveis, nas nossas experiências pessoais e nas experiências de outras pessoas. Além disso, essas quatro aflições estão dentro das categorias maiores de sofrimento que são experienciadas por todos os seres, tantos humanos quanto não-humanos.

Um dos maiores sofrimentos dos seres sencientes é a dor da experiência de não conseguir o que querem — ou conseguir o que eles pensam que querem e então descobrir que não é suficiente, ou que não é o que eles realmente querem. Essas frustrações constantes são intrínsecas à natureza impermanente e mutável da existência cíclica.

Então, há sofrimento acima de sofrimento, o que significa que não importa quão ruim a situação esteja, ela pode piorar. No dia em que você perde sua carteira, seu dente começa a doer e você toma uma chamada furiosa de seu chefe. Ou numa escala maior, países atormentados pela fome também são arruinados pela guerra.

O sofrimento permeia a existência cíclica do mesmo modo que o óleo permeia a semente de gergelim. Como o óleo, a completa permeação do sofrimento não está sempre presente, especialmente nas fases em que o prazer predomina e as coisas parecem ir bem. Porém, assim como o óleo se torna óbvio quando as duras sementinhas são pressionadas e moídas, do mesmo modo o sofrimento latente é diretamente experimentado quando nossas camadas de suposições se quebram sob a opressão da existência cíclica.

Por que é assim? A resposta é que nós estamos sujeitos ao karma, à inexorável lei de causa e efeito. A questão que segue logicamente é: o que causa o karma? A causa raiz são os venenos da mente. Nossa mente é basicamente confusa porque nós não reconhecemos sua natureza absoluta. Faltando esse entendimento, nós deslizamos para uma função defeituosa, que é a dualidade.

Nós primeiro nos agarramos a um "eu" que percebe e a um "objeto" que é percebido. Vendo o objeto, nós definimos seu tamanho, forma e cor. Então o julgamos. "É bonito. É feio. Eu gosto. Não gosto. Faz-me feliz. Faz-me infeliz." Finalmente, sentimos apego ou aversão: "Eu quero. Eu não quero." Aqui é onde o sofrimento começa.



A Verdade Dupla: Relativa e Absoluta


Nossas percepções de eu e objeto, nossa vacilação entre apego e aversão, são processos dualistas que ocorrem na mente. Elas são, desde o início, um modo fictício de percepção. Uma vez que esse processo dualista vem a jogo, nós oscilamos de uma confusão à outra, interminavelmente.

Todo sofrimento realmente vem do fato de não conhecermos nossa verdadeira natureza, e também vem do apego e da aversão, que são subprodutos da nossa ignorância. Por causa desses venenos, complicamos ainda mais a espiral de sofrimento através de ações, fala e pensamentos não-virtuosos. Essa mentalidade dualista produz a verdade relativa. Para entender esse termo, pense no exemplo de ir para a cama a noite. Ali está você, entre lençóis quentes. Tudo está seguro. Não há problema. Mas através de sua mente, você deixa sua experiência de vigília e começa a sua experiência onírica.

Aquela experiência não é menos real para você do que sua realidade de vigília. O ambiente é sólido. As pessoas são realmente pessoas. Elas sorriem para você ou franzem a testa para você. Qualquer coisa que aconteça parece bem real. Se você ganha na loteria, você fica em êxtase. Você se preocupa em encontrar locais para enterrar seu dinheiro. Se alguém está batendo em você, dói. Se você prova açúcar, é doce. Mas embora o sonho pareça muito real, não é real fora do contexto onírico. Do mesmo modo, nosso estado de vigília não é real fora do seu contexto auto-produzido.

Do dia em que nascemos até o dia em que morremos, nossa experiência de vida é uma verdade relativa sempre mutável que consideramos como sendo muito real. Não é, entretanto, absolutamente real ou permanente. Isso é muito importante de entender. Quando você desperta do seu sonho da vida, não há posses, não há relacionamentos, não há dramas emocionais. Todas as suas experiências, que pareciam verdadeiras, não eram verdadeiras no sentido absoluto.

O critério que podemos usar para entender a verdade é a permanência. Se algo é permanente, é verdadeiro. Se é impermanente, não é verdadeiro, porque irá desaparecer. Logo será apenas uma memória. Tudo na nossa realidade é apenas uma coletânea de imagens oníricas, que supomos ser verdadeiras e significativas porque nós estamos muito envolvidos nela. Nossa experiência é um produto de nossa delusão fundamental. Se não houvesse venenos na nossa mente, a nossa percepção da realidade seria diferente.

É o objetivo do Dharma de Buddha nos despertar para que possamos ver a qualidade ilusória de nossa realidade relativa e entender nossa natureza absoluta fundamental. De qualquer outro modo, apenas continuamos a sonhar. Nosso sonho pode ser agradável ou desagradável, mas nunca continua o mesmo. Nascemos, ficamos doentes, envelhecemos, morremos e nunca despertamos do sonho da delusão.

Um estado completamente desperto é a iluminação, o reconhecimento inabalável da natureza absoluta de nosso ser. A natureza absoluta permeia tudo e de nada está separada, mas fomos tão longe numa tangente, tão longe na delusão da mente dualista, que perdemos de vista o que é absoluto. Seguimos a tangente da verdade relativa e pensamos que o absoluto está em algum outro lugar, em um tempo diferente. Vendo separação onde não há, sofremos em nossa experiência de verdade relativa e em nosso anseio por um absoluto imutável, além da vida e da morte.

Num sentido espiritual, não é muito eficaz tentar mudar o mundo externo de maneira a prevenir o nosso próprio sofrimento. Por exemplo, se olharmos para um espelho e virmos uma cara suja, podemos pensar, "Ó, que rosto sujo!". Então, rapidamente pegamos um pano e esfregamos o espelho. Esse não é o caminho para nos livrarmos da cara suja que vemos. Uma vez que percebamos que o reflexo é a nossa própria face, podemos mudar a aparência no espelho simplesmente lavando o nosso rosto. Não irá funcionar lavar o sofrimento de nossas circunstâncias, mas reconhecendo nossa mente como sendo a causa original, podemos mudar a nós mesmos.

As pessoas vêem as coisas de maneiras diferentes. Por exemplo, um homem come e adora tanto pimenta-vermelha que, se ele fosse privado de comê-la, restaria pouca coisa que valesse a pena comer. Mas outro homem come pimenta-vermelha e se contorce de dor. A substância em si não é diferente. As tendências habituais de percepção, experiência e reação é que são diferentes.

Assim é com a vida. Uma pessoa vê as coisas de uma certa maneira e outra pessoa vê as mesmas coisas numa maneira completamente diferente. Um homem considerado maravilhoso por seus amigos pode ser visto como um bruto por outros. Apesar disso, o homem não é diferente. O homem é simplesmente o homem. Uma substância é simplesmente uma substância. O mundo é simplesmente o mundo. Mas nós percebemos e interagimos com ele de acordo com o nosso próprio nível de entendimento.


Karma e Morte

Os venenos da mente criam a experiência kármica à qual cada ser está sujeito. Esses venenos fazem surgir diferentes percepções da realidade e, conseqüentemente, os seres sencientes são encontrados em um dos seis reinos kármicos maiores, dos quais o reino humano é um. Além disso, dentro de cada reino, a condição kármica de cada ser senciente é única, de acordo com a complexidade de venenos que afetam a mente do indivíduo.

Por exemplo, pense numa substância comum, a água. Ao percebermos a água através dos olhos de cada um dos seis reinos da condição kármica, podemos entender como a experiência de cada ser é diretamente qualificada por suas próprias percepções. Os deuses mundanos perceberiam a água como uma substância divina, um néctar que produz bem-aventurança, bem diferente da percepção dos humanos e de muitos animais, a visão do que a água é muito necessária, ainda que parte usual da vida. Para outros animais, como o peixe, a água é o ambiente sustentador, e para um fantasma faminto, a água é percebida como pus, sangue e urina, vis e repugnantes. Para um ser do inferno, a água aparece como lava derretida, chamuscante e aterradora.

O karma afortunado de nascer nos reinos elevados dos deuses mundanos ou dos humanos é o resultado de virtude, mas de uma virtude que está misturada com apego ou aversão. Por causa desses dois venenos, mesmo os seres de reinos elevados oscilam de um lado para o outro, entre a esperança e o medo, e a felicidade imutável é impossível de se atingir. Nos reinos superiores, assim como nos reinos inferiores, a vida tem uma qualidade impermanente.

O grande catalisador para as nossas esperanças e medos é a morte. Precisamos entender que o nosso breve interstício de vida será tão longo quanto a nossa acumulação de karma positivo suportá-lo dentro dos limites naturais do renascimento humano. Se a morte prematura ameaça ou interrompe o nosso tempo de vida, isso é por causa do karma negativo criado por ações passadas. Não podemos saber quando tal karma pode emergir, o que é uma razão para o nosso medo de uma morte repentina.

O karma de ter matado numa vida passada é uma causa de morte prematura. A não-virtude é tão forte que cria diretamente a experiência de inferno. Entretanto, uma vez que esse karma não-virtuoso seja exaurido pela experiência infernal, pode-se ganhar re-acesso ao reino humano, mas a vida da pessoa pode ser muito curta. A intervenção compassiva de salvar as vidas dos outros é o antídoto para este perigo da vida curta.

A compaixão é fundada sobre o entendimento de que ninguém deseja morrer, de que todo mundo valoriza sua própria vida. Quando salvamos uma vida com compaixão por outro ser, estamos engajando o poder de nosso corpo, fala e mente para fazermos algo para os outros. Isso purifica o karma negativo e corrige o habitual interesse próprio. Também desenvolve as nossas qualidades como um ser compassivo. Ao salvar a vida dos outros, podemos aumentar o benefício de nossa ação com o desejo de que todos os seres, sem exceção, tornem-se livres do sofrimento e venham a conhecer a bem-aventurança imutável da iluminação.

Portanto, nosso desejo compassivo tem dois aspectos — parar imediatamente o sofrimento e beneficiar definitivamente todos os seres através do espaço, não importa quem ou onde eles estejam. Pela qualidade desta dupla compaixão, criamos uma virtude muito potente, que limpa o fluxo mental. Esse é o método direto para superar todo o sofrimento e abrir caminho além da esperança e do medo. Definitivamente leva à liberação completa na simplicidade aberta da natureza absoluta da mente.


O Processo do Morrer

Chega um ponto em que é óbvio que a morte está próxima e não pode ser revertida. Nem remédios, nem métodos meditativos que fortalecem nossa constituição elemental, nem orações estenderão nossa vida. Seja por doença degenerativa ou por velhice, sabemos que logo iremos morrer.

Um entendimento dos fenômenos físicos, sensoriais e mentais do processo de morte podem ser muito proveitoso conforme a nossa própria morte se aproxima; pode também prover insights nas experiências dos outros que estão morrendo. Devemos perceber, entretanto, que as sensações estranhas da morte e a perda do suporte familiar do corpo ainda serão muito difíceis. Por esta razão, é imperativo desenvolver um reconhecimento inamovível da natureza absoluta que irá nos carregar através do tempo de morte, não importa o que surja.

A morte começa quando os cinco ventos vitais que sustentam as funções corporais e os cinco ventos secundários que sustentam os sentidos perdem poder, fazendo com que suas funções falhem com eles. Numa inter-relação complexa, os centros de energia do corpo, conhecidos como chakras, começam a falhar. Conforme a energia de cada chakra se dispersa, um elemento correspondente do corpo — terra, água, fogo, vento — também se dispersa.

Esses elementos têm uma relação direta aos seus componentes corporais. O elemento terra relaciona-se à carne e aos ossos; o elemento água, ao sangue e fluidos; o elemento fogo, à digestão e ao calor interno; e o elemento vento, à respiração e circulação. Quando esses elementos desassociam-se, um após o outro, sua coesão e função deterioram. As experiências física, mental e visionária do morrer rapidamente se aceleram.

Os primeiros efeitos da morte são a dificuldade de digerir comida, de engolir e de levantar os braços, as pernas e a cabeça. A respiração é curta e ofegante. Os membros, e então o corpo todo, estão resfriados e nada os aquece. A mente fica agitada e os pensamentos surgem incontrolavelmente.

Torna-se impossível ficar ereto. Não podemos levantar nossos braços e pernas, a cabeça recosta-se e há uma sensação de forte pressão por todo o corpo. A agitação cessa e é substituída pela sonolência, um semi-falecimento. Temos visões como miragens e luzes bruxuleantes.

Há secura na boca, no nariz, na garganta e nos olhos. As sensações corporais são grandemente reduzidas e alternam entre dor e prazer, calor e frio. A mente torna-se irritadiça e temos visões de fumaça. Então, não conseguimos reconhecer os amigos ou a família. Som e visão estão confusos. Vemos pontos vermelhos como vaga-lumes.

Nos tornamos totalmente imóveis. A respiração fica mais breve e entrecortada, nossas exalações ficam mais longas. Som e visão tornam-se indistintos. Experiências visionárias surgem de acordo com o nosso karma. Pessoas cujas atividades do corpo, fala e mente tenham sido muito negativas podem ver formas aterradoras ou reviver os maus momentos de suas vidas. Elas podem reagir com sons guturais de medo. Aqueles que foram virtuosos e gentis podem experienciar visões celestiais e cheias de bem-aventurança, e ver formas dos amigos amados e seres iluminados. Eles teriam pouco medo da morte.

Finalmente, há uma exalação longa, o "estertor da morte". Isso é seguido pelo fechamento da visão, da audição, do olfato, do paladar e do tato conforme, os ventos retraem-se em direção ao coração. Fisicamente, estamos mortos.

Nada se compara ao medo da morte, nem a ansiedade de se ter uma falha nos negócios, nem o pesar dos amados morrendo, nada. Quando sabemos que a morte está iminente, há um medo muito além de qualquer emoção que tenhamos experimentado em nossas vidas. O medo alterna-se com desapontamento sobre a ausência de finalidade da vida. Trabalhamos duro e tentamos ser bem sucedidos, o que veio dos resultados? Uma terrível tristeza surge de olharmos para trás e de descobrirmos que a vida foi insatisfatória e um tanto sem sentido.

Não sabendo o que irá ocorrer ou para onde iremos, sentimo-nos profundamente perturbados. Dominados pelas emoções, estamos sem poder para lidar com a confusão.
Nosso entendimento do processo da morte e as dificuldades que ela envolve devem ser um incentivo para nos prepararmos para a morte. Começamos essa preparação ao reconhecermos que a natureza da nossa vida é similar ao sonho. Momento após momento, devemos olhar para a vida como se ela fosse um sonho se desdobrando. Quer estejamos abastecendo o carro com combustível, quer estejamos lavando pratos ou dando uma caminhada, devemos parar um pouco e olhar para a situação, a qualidade onírica dela.

Deste modo, aprendemos a aceitar que a vida inevitavelmente mudará, e aprendemos a saber que ela não é mais do que um sonho mudando para o outro. Ao mantermos essa visão, criamos uma postura sutilmente diferente na vida, e o nosso apego diminui. As coisas não parecem tão sólidas e não nos agarramos a elas tão rigidamente.

Nesse estado de ser relaxado, mais aberto, temos a oportunidade de ganhar os meios infalíveis para morrermos bem, que é o reconhecimento da nossa natureza absoluta.








Meditação Diária Sobre a Morte


De noite, quando você deixa as atividades do dia, você deve se empenhar numa série de meditações contemplativas, similares a essas: Tudo bem, logo estarei caindo no sono. Sobre quantas pessoas ouvi dizer que tinham ido dormir e nunca acordaram? Quando eu deitar minha cabeça no meu travesseiro, posso não levantar de novo. A morte não é tão complicada. É simplesmente uma questão de não conseguir respirar mais uma vez. Então estarei morto. Isto pode ocorrer comigo esta noite em meu sono.

Então, crítica e honestamente, olhe para a sua vida e pense, Se eu morrer esta noite dormindo, o que fiz do meu dia? Que fiz com a minha vida? Fui de algum benefício ou causei algum dano? Algumas vezes não é tão agradável ver o quão auto-centrado e egoísta você tem sido, o quão focado no "eu, meu". Quando quer que tenha sido este o caso, você criou um karma que, em última análise, impele a mente numa direção difícil no momento da morte. É como a movimentação para frente. Se você põe algo em movimento, ele continua a ir naquela direção. Se a sua mente tem se movido através de um curso negativo, quando você morrer ela continuará exatamente no caminho pelo qual ela tem se movido o tempo todo.

Assim, a cada noite você deve estimar a direção geral e específica da sua vida. Você deve reconhecer onde tenha sido indulgente nas falhas da sua mente e onde tenha causado dano aos outros. Esse karma negativo deve ser purificado, o que significa que você deve confessar suas faltas diante do ser de sabedoria que é o objeto do seu compromisso e devoção espirituais. Você deve tomar refúgio num ser de sabedoria perfeito, sem qualquer erro, a expressão absoluta da mente iluminada por completo.

Comece confessando, Fiz de novo. Machuquei os outros. Causei dano. Estive errado. Sei fazer melhor, mas erroneamente eu fiz de novo. Então, aceite a absolvição absoluta de quem quer que você saiba que seja um ser de sabedoria perfeito. Se, por exemplo, você tem fé em Jesus como o objeto da sabedoria, visualize que bênçãos descem dele na forma de luz e néctar, e realmente lavam a sua acumulação de karma não-virtuoso e hábitos mentais negativos.

Então, com o ser de sabedoria como sua testemunha, reafirme a sua intenção de beneficiar os outros seres ao fazer o voto, Ajudarei os outros, de qualquer maneira que eu possa, até que eu verdadeiramente tenha a força iluminada para trazer a eles bem-aventurança e felicidade perfeitas.

Tão importante quanto reconhecer os seus erros é igualmente importante reconhecer onde você foi gentil e onde as suas atividades de corpo, fala e mente tenham sido de benefício. A virtude de tais atividades cria um mérito que é dedicado generosamente, com um coração puro, sem noção do "eu", aos benefícios imediato e último de todos os seres. Pelo poder dessa dedicação, possa cada ser encontrar felicidade e possam todos, sem exceção, atingir as qualidades da sua natureza búdica intrínseca.

Com isso, descanse no pensamento, Purifiquei meu karma. Comprometi-me ao trabalho sem noção do eu para o benefício dos outros. Dediquei minha acumulação de mérito para a sua felicidade. Agora, se eu morrer hoje de noite, não terei arrependimentos.

Tendo refletido sobre o dia desta forma, medite sobre a sua própria morte. Imagine que você está realmente prestes a morrer, que você realmente entra pela passagem da morte e que não há retorno. Imagine vividamente diferentes cenários — um acidente aéreo ou automobilístico, uma doença terminal, ser apunhalado por um ladrão. Use o seu poder da mente para fazer o evento imediato e real. Qualquer cenário que você escolha tem alguma possibilidade, porque você realmente não sabe onde e quando sua morte poderá ocorrer.

As pessoas normalmente expressam medo sobre esse tipo de meditação e dizem, "Se eu pensar dessa maneira, talvez aconteça comigo." Mas pense em todas as coisas que já cruzaram sua mente — você não teria tempo num éon para que todas estas coisas ocorram a você. Pensar sobre a morte não a fará acontecer, mas isso prepara a sua mente para a experiência da morte. Então, corajosamente, imagine detalhes da sua morte tão claramente quanto possível: Há uma dor pungente no meu peito. É meu coração! Estou tendo um ataque cardíaco!

Ouço as sirenes da ambulância. Estão me pondo numa maca, minha mulher está chorando e o cão está frenético. Eles passam pelas escadas conforme me carregam para fora. As luzes da ambulância, o caos, as luzes brilhantes da sala de emergência...

Eu ouço de longe o doutor dizer, "Sinto muito, Sra. Jones, mas ele está numa situação muito ruim. Nós podemos não estar aptos a tirá-lo dela."

Minha esposa olha para mim, atordoada e com o coração quebrado. Ela é a minha última ligação. Não consigo dizer nada. Não consigo vê-la agora. Estou tão só, sem socorro...

Estou morrendo, mas todo mundo morre. Minha vida parece como um sonho e agora está prestes a terminar. A morte parece muito familiar. Sei que eu já passei por ela antes. Vida, morte — elas são transições que eu preciso fazer. A escolha que tenho jaz na intenção da minha prece, no poder da minha meditação e na decisão em usar minha conexão espiritual com o ser de sabedoria no qual eu tenho fé.

Com sua mente e seu coração, ofereça tudo o que foi positivo na sua vida ao benefício de cada outro ser. Não se apegue a nada. Com o ser de sabedoria que é o seu refúgio espiritual como testemunha, diga esta prece profundamente sensível: Pela virtude que eu tenha acumulado na minha vida, possamos eu e todos os outros seres que passam pela porta da morte encontrar renascimento num estado de sagrado despertar puro.

Então, permita a sua consciência essencial juntar-se inseparavelmente com o coração da essência da sabedoria perfeita. Isso completa a segunda fase da meditação.

Finalmente, ao concluir a meditação noturna sobre a morte, traga à mente a impermanência e o sofrimento que a morte traz para todos os seres e deixe que a compaixão se expanda do recôndito mais profundo do seu coração-mente.

O sofrimento permeia tanto o nosso mundo, em todos os reinos da existência, que parece haver pouco que possamos fazer. Quem não se frustrou ao tentar ajudar mesmo uma única pessoa? Como podemos pensar em ir de encontro às necessidades dos incontáveis seres que estão perdidos num oceano de sofrimento? Só um ser de sabedoria iluminado pode verdadeiramente beneficiar todos os seres, da mesma maneira que a irradiação do sol brilha para todos que permanecem na sua luz.

Com esse pensamento, aspire à iluminação: De agora até a iluminação, trabalharei incessantemente para o bem-estar dos outros. Em cada momento, prometo reduzir minhas falhas e aumentar minhas qualidades de compaixão e sabedoria. Seguindo esse caminho espiritual e o mérito que ele gera, possamos eu e todos os outros encontrar liberdade do sofrimento e realizar nosso potencial iluminado inato.

Então,0 deixe todas as atividades da mente e relaxe. Esse relaxamento é como a abertura que ocorre depois que passa o último pensamento e antes que o próximo surja. A mente permanece como ela é, não inconsciente, não embotada, não analítica, apenas nua em despertar aberto. Deixe que a mente lá descanse.


A Transição da Morte ao Renascimento


Quando a morte está próxima, a constituição elemental do corpo se desassocia e então começa o fim da vida. A morte leva ao estado intermediário entre morte e renascimento, chamado bardo em tibetano.

No nascimento, a semente da energia masculina habita o chakra coronário. Na morte, quando os elementos enfraquecem, o vento ascendente não consegue mais segurar essa energia na coroa e ela começa sua descida através do canal central até o centro cardíaco. Nesse momento, todos os pensamentos que brotam da raiva cessam.

No nascimento, a semente da energia feminina habita o umbigo. Quando os ventos descendentes cessam de funcionar, essa energia começa a ascender através do canal central. Todos os pensamentos que brotam do desejo cessam.

Quando essas duas energias encontram-se no coração, todos os pensamentos que brotam da ignorância cessam. Não há mais qualquer arrebatamento de pensamentos venenosos. A pessoa falece num período de inconsciência, então desperta para a experiência da mente assim como ela é.

Esse 're-despertar' é chamado de bardo da clara luz. Se você foi um verdadeiro grande praticante na sua vida e alcançou a maestria nas habilidades meditativas de deixar a mente ser o que é, ao alvorecer do bardo da clara luz a fruição da experiência meditativa será o reconhecimento do solo da verdade absoluta. Isso é chamado iluminação completa no momento da morte.

Se lhe falta essa profunda perícia meditativa, o momento passa, então repentinamente você apreende a cor. A expressão das qualidades da mente natural aparece como cores que delineiam as diferentes formas das deidades, tanto pacíficas quanto iradas. Se na sua vida você teve a habilidade meditativa de reconhecer as formas das deidades como a aparência natural da sua mente, você pode atingir iluminação nesse estágio da experiência do bardo.

Se você passar por ambos este estágios do bardo sem reconhecê-los como a expressão da natureza absoluta da sua própria mente e de suas qualidades puras, você entra no 'bardo do vir-a-ser' ou sidpa bardo. Esse é o começo da rota kármica para o renascimento ordinário. A tendência em direção ao apego ao eu, residual nos estágios primários do bardo, é expandida no dualismo plenamente desenvolvido no bardo do vir-a-ser.

No bardo do vir-a-ser, a experiência do karma negativo é intensa porque a mente não tem mais o efeito estabilizante de um corpo material. Habitando um corpo mental, sua consciência é confrontada com alucinações aterrorizantes, sons horríveis e sensações pesadelescas de ser jogado de um lado para o outro desamparadamente.

Entretanto, se em vida você tiver adotado a prática da prece quando as coisas estavam além da esperança, a prece será uma reação natural dentro da intensidade do bardo do vir-a-ser. Sendo que a mente não está limitada por um corpo físico ordinário, no instante que você reza para um ser de sabedoria, a mente será liberada no ambiente do despertar de sabedoria deste ser, que é livre de qualquer traço de sofrimento e completo com as perfeitas qualidades da iluminação.

Em suma, é melhor ter realizado a natureza da mente através da meditação, para que assim, no momento da morte, sua consciência funda-se inseparavelmente com o solo fundamental do ser. Isso é a iluminação.

Em seguida, o melhor é reconhecer que a aparência da forma divina não é outra que não o desvelar natural do solo da verdade absoluta, inseparável do desvelar de sabedoria da sua própria natureza absoluta. Isso, do mesmo modo, é a iluminação.

Finalmente, mesmo sem as habilidades meditativas para se tornar iluminado no bardo, você consegue com certeza levar a cabo o poder do da prece. Esse poder vem da fé profunda no ser de sabedoria que é a fonte do seu refúgio espiritual.

Algumas vezes, a prece não parece efetiva durante a vida da pessoa porque as circunstâncias não mudam facilmente de acordo com os desejos dela. Entretanto, no bardo do vir-a-ser o poder da prece está desobstruído e libera a pessoa diretamente do tumulto do sofrimento em um ambiente de pureza e bem-aventurança infinitas.

P'howa: Transferência de Consciência no Momento da Morte


Os meditantes do buddhismo tibetano têm um método especial de transferir a consciência num ambiente de despertar iluminado no momento da morte. Praticando esse método com sucesso, conhecido como "p'howa", a pessoa desvia o destino kármico que ela encara no bardo do vir-a-ser.

Embora haja diversas categorias de p'howa, a prática usada para transferir a consciência na morte é chamada de "p'howa dos três reconhecimentos": o reconhecimento do canal central como o caminho, o reconhecimento da consciência como o viajante do caminho e o reconhecimento de um ambiente de despertar de sabedoria pura no destino.

As instruções meditacionais para o p'howa são dadas dentro do contexto dos ensinamentos sobre a morte e o morrer, e então são praticadas repetidamente. Com a prática concentrada na presença de um mestre de p'howa, as habilidades do p'howa podem ser concluídas em alguns dias. Se a pessoa pratica sozinha, concluí-la pode levar algumas semanas. Entretanto, comparada com outras meditações, que podem levar anos antes que a realização inabalável seja ganha, o p'howa dá resultados muito velozes e garantidos. A pessoa ganha confiança e habilidade prática diante da morte.

O grande resultado do realização do p'howa é a liberação do renascimento cíclico e sofrimento.


Conclusão


Esse ensinamento sobre a morte e o morrer consegue alcançar lugares profundos no seu entendimento. Tudo que você deve fazer é ouvir plenamente, contemplar o significado e meditar até que a realização seja levada a cabo em sua mente.

De novo, não ignore a impermanência. O que quer que pareça ser uma prioridade na sua vida é realmente muito temporário. Vem e vai. Nada é confiável.

Nascemos sós e nus. Conforme nossa vida se desdobra, passamos por toda sorte de baboseiras: necessidades, posses, perdas, sofrimento, choro, tentativas... mas então morremos, e morremos sós. Não faz diferença se somos ricos ou pobres, conhecidos ou desconhecidos. A morte é o grande nivelador. No cemitério, todos os cadáveres são iguais.

Nossas relações uns com os outros são como a chance de encontro de dois estranhos num estacionamento. Eles olham um para o outro e sorriem. Isto é tudo que há entre eles. Eles vão embora e nunca se vêem de novo. Isto que a vida é — só um momento, um encontro, uma passagem, e então se vai.

Se você entende isso, não há tempo para luta. Não há tempo para discussão. Não há tempo para ferirem uns aos outros. Quer você pense em termos de humanidade, nações, comunidades ou indivíduos, não há tempo para nada menos do que verdadeiramente apreciar a breve interação que temos uns com os outros.

Nossas prioridades mundanas podem ser irônicas. Colocamos em primeiro o que achamos que gostamos mais; então descobrimos que nosso querer é insaciável. Pagar a casa, escrever o livro, fazer o negócio ter sucesso, ajeitar a aposentadoria, fazer a grande viagem — coisas que estão temporariamente no topo da nossa lista de prioridades consomem completamente nosso tempo e energia. E então, ao fim da vida, olhamos para trás e nos perguntamos o que todas aquelas coisas significaram.

É como alguém que viaja num país estrangeiro e paga tudo com a moeda daquele país. Então ele vai até a fronteira e fica surpreso ao saber que a moeda do país não pode ser trocada pela de outro ou carregada além. Do mesmo modo, nossas posses e empreendimentos mundanos não podem ser carregados através do portal da morte. Se contarmos com eles, nos descobriremos repentinamente empobrecidos e privados. A única moeda que tem algum valor quando viajamos através da barreira da morte é o nosso atingimento espiritual.

É melhor desenvolver o contentamento e apreciar o que temos num sentido mundano. O tempo é muito precioso. Não espere até que você esteja morrendo para entender a sua natureza espiritual. Se você fizer isso agora, você descobrirá recursos de benevolência e compaixão que você não sabia que tinha. É a partir dessa mente de sabedoria e compaixão intrínsecas que você pode verdadeiramente beneficiar os outros.

O desenvolvimento espiritual começa com a intenção de nunca causar dano aos outros. Então, por favor, seja cuidadoso. Se você se põe no lugar dos outros, você percebe quão o destrutivo é ferir ou matar outro, mesmo um inseto. A vida é a vida e cada ser quer viver. Se você mantiver os outros nessa estima, você fechará a porta para o seu próprio sofrimento. A mente é como um microscópio. Ela aumenta tudo. Se você critica a si mesmo todo o tempo, Eu sou tão pobre, não sou alto o suficiente, meu nariz é muito grande, se você concentra sua atenção em todas suas imperfeições e misérias, elas irão piorar até que você esteja pronto para desistir em desespero.

Ao invés de dizer, Sinto-me podre. O que devo fazer?, pense no sofrimento dos outros e gere compaixão. É muito importante realmente ver o sofrimento, prestar atenção ao contador fatigado no banco, o velho cansado e pálido se arrastando pela rua, a criança chorando miseravelmente. Veja a profundidade do sofrimento e pegue uma perspectiva do seu próprio sofrimento. Outros estão doentes, são ameaçados por guerra e fome, eles estão morrendo.

A compaixão é o desejo fervoroso de que todos os seres sem exceção, o seu pior inimigo bem como o seu amigo, encontrem liberdade do sofrimento. Para desenvolver uma compaixão genuína, que inclua todos, primeiro exercite a compaixão para com aqueles mais próximos; então expanda-a aos estranhos e por último para todos os seres através do espaço.

Então, volte o seu desejo em direção à felicidade deles. Sendo que a felicidade provém apenas da virtude, deseje que qualquer felicidade que os outros tenham ganho da sua virtude passada possa nunca ser diminuída ou perdida, e que ela possa sempre aumentar, até que eles ganhem felicidade infinita e imutável. Esse desejo pela felicidade dos outros é o que é verdadeiramente chamado de amor. Regozijar-se por qualquer medida de felicidade que outros tenham traz alegria ilimitada para nossa própria existência.

Sempre reconheça as qualidades da vida como similares ao sonho e reduza o apego e a aversão. Pratique a bondade de coração para com todos os seres. Seja amável e compassivo, não importando o que outros façam para você. O que eles fizerem não irá importar tanto quando você ver isso como um sonho. O truque é ter a intenção positiva durante o sonho. Esse é o ponto essencial. Essa é a verdadeira espiritualidade.

Se você veste trajes monacais, raspa sua cabeça, ora de joelhos todo dia e se torna ainda mais agressivo, orgulhoso e e duro, você não está praticando a espiritualidade. Você deve praticar a essência, que é compaixão e amor sem noção do eu, e então tente ajudar os outros na maior medida da sua capacidade. Use todos os seus recursos do corpo, da fala e da mente. Esse é o método. Quer você seja cristão, hindu, judeu ou buddhista, o amor e a compaixão são os mesmos.

A vitória sobre as falhas e sobre a delusão levam à vitória sobre a morte. Meu desejo para cada um de vocês é que vocês atinjam todas as qualidades da compaixão e da sabedoria, e que vocês atinjam o último estágio da iluminação, além da vida e da morte.






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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"