Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

27.7.07



Entre o sono e o sonho,

Entre mim e o que em mim me suponho,

Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,

Diversas mais além,

Naquelas várias viagens

Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito

A casa que hoje sou.

Passa, se eu me medito;

Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre

No que me liga a mim

Dorme onde o rio corre

- Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa

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A extensão da ternura vai ser posta à prova no momento de uma separação ou quando se transforma o tácito acordo: “meus espaço, minha liberdade, minha vida, meu destino, meu desejo”, contrapõem-se como dois guerreiros de armadura e tudo, prontos para o embate. Com dor, com fervor, com afeto, com todo o espectro de sentimentos vários e ambíguos que nos constituem, estamos expostos, abertos, e frágeis.

Amar sem querer perder é para os santos, não é coisa para a gente, nós que nos preparamos tanto, nós que nos entregamos tanto, nós que tanto ardemos e cantamos e voamos e nos despimos do egoísmo e controlamos a impaciência, e fomos devotados... e aparentemente tudo começa a se esboroar.

Os desejos de um podem não combinar com os de outro: quem amamos não conseguiu sentir-se bem em nossa roupagem de rei e rainha, não entendeu que conosco seria um deus, ou simplesmente sentiu-se ameaçado pelo peso desse nosso amor.

A intransponível solidão retorna, já nos acena, velha amiga que talvez tenhamos de apreciar melhor. Vamos, mais uma vez, para o seu abraço – do qual realmente nunca saímos.

Abrimos a mão para que, bela ave-do-paraíso, a coisa amada saia a buscar sua maior felicidade ou seu contentamento. Isso dói, mas ode ser feito com verdade. Protestamos, choramos, mas a gente consegue. Um pedaço de mim se vai com quem se fundira comigo e agora quer-se desprender: eu erro, me atrapalho, reclamo, mas, se quero o bem do outro, acabo cedendo e, para fazer honra a esse amor, me recomponho, e recomeço, inteira.

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Canção da minha ternura

Rondaste o meu castelo solitário
como um rio de vozes e de gestos;
baixei as minhas pontes fatigadas
e conheci teus lumes, teus agrados
teus olhos de ouro negro que confundem;
andei na tua voz como num rio
de fogo e mel e raros peixes belos,
cheguei na tua ilha e atrás da porta
me deste o banquete dos ardores
teus.

Mas às vezes sou quem volta
a erguer as pontes e cavar o fosso
e agora em sua torre, ternamente,
sem mágoa se debruça nas varandas
vendo-te ao longe , barco nessas águas,
querendo ainda estar se regressares
-porque seria pena naufragarmos
se poderias ter, sem tantas dores,
viagens e chegadas nos amores
meus.

Lya Luft



Minha primeira lágrima caiu dentro de teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

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Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua.
Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras,
E a voz dos pássaros e a das águas correr,
- sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.
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Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?
Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho,
E tristemente te procurava.
Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

Cecília Meireles

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Da primeira vez em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Mário Quintana

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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"