Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

1.8.07


Ecola Point, Oregon Coast © Don Paulson



uma ave de palavras escreve no espaço
a remota sabedoria do voo,
depois desce e vem pousar
suavemente na palma da mão.
olho-a mas não ouso tocar-lhe.

o mundo dorme sob o vento.
só eu continuo acordado sob vigília.
se houvesse agora uma catástrofe eu daria por ela.
levantar-me-ia daqui para encarar a morte,
dizer-lhe que são inutilidades o que arrasta consigo.

Al Berto

Tuscan Landscape at Sunrise, Italy © SuperStock, Inc.



tempo branco, tempo de nenhuma paixão.
desce ao âmago desta cela.
debruça-te para o interior do meu vazio.
nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil.
nenhum desejo - porque o desejo precisa de um rosto.
e no lugar daquele que partiu acende-se a noite.
pressente-se a morte.
Mas no fundo de mim carregas
ao ombro uma chapa de aço,
em forma de sol apagado.

o teu corpo fundiu no silêncio do meu.
dormimos na espessura da poeira,
e nela suspendemos o tempo.
abandonamos a alma.
Esquecêmo-nos.
nada sentimos, nenhum acto se realiza.
nenhuma alegria ou tristeza.
apenas matéria, matéria deixada
à voragem dos escombros e da ferrugem.

agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos.
construir formas com eles e deixá-los, assim,
numa melancólica eternidade.
longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo
- como uma só engrenagem, única e bela.
resquício de memória que se apaga lentamente,
sem que ninguém dê por isso.

Al Berto

Mount St. Helens and Spirit Lake, Washington © Russ Finley / Finley-Holiday Films



há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida pensava eu...
como seriam felizes as mulheres à beira mar debruçadas
para a luz caiada remendando o pano das velas
espiando o mar e a longitude do amor embarcado
por vezes uma gaivota pousava nas águas outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve que nunca mais avistei cidades crepusculares e os barcos
deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto


1 Comments:

Blogger cantabile diz...

Esse Al Berto tem a alma aberta à poesia.
belíssimo!
bjs e bons ventos agostinos.

5:57 PM  

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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"