Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

21.9.06

Um beijo de boa noite.

Sou enfermeira e sempre que chegava ao asilo para trabalhar no turno da noite percorria os corredores para conversar e ver se estava tudo em ordem. Muitas vezes encontrava Kate e Dris sentados com seus álbuns no colo, vendo fotos e relembrando o passado. Com orgulho, Kate me mostrava retratos antigos em que Cris aparecia, alto e alinhado, e ela, bonita e sorridente. Dois namorados lembrando alegremente a sua história. Como era lindo vê-los juntos.
A luz do sol refletindo em seus cabelos brancos, os rostos, vincados pela idade, iluminados pelas lembranças capturadas para sempre nas fotos dos álbuns.

Às vezes, a equipe do turno da noite via Kate e Cris caminhando de mãos dadas. O assunto passava a ser o amor do casal e o que aconteceria quando um deles partisse. Todos conhecíamos a força de Cris e sabíamos o quanto Kate dependia dele. Muitas vezes nos perguntávamos como ficaria Kate se Cris morresse primeiro.


A hora de dormir tinha todo um ritual. Eu trazia a meditação da noite e encontrava Kate na sua cadeira, de camisola e chinelos, me esperando. Cris e eu observávamos enquanto ela tomava seu remédio. Então, com muito carinho, Cris a ajudava a passar da cadeira para a cama, ajeitando as cobertas ao redor do corpo frágil.
Observando esse ato de amor, eu pensava pela milésima vez:

“Meu Deus, por que os asilos não têm cama de casal? Marido e mulher dormem juntos a vida inteira e justamente num asilo, onde mais precisam de aconchego, são privados de um costume que os confortou toda a vida.”

“Como são tolas essas regras”, eu pensava, enquanto observava Cris se levantar e desligar a luz sobre a cama de Kate. Então ele se curvava para beijá-la docemente, acariciando seu rosto, e os dois sorriam enquanto ele levantava a grade lateral da cama.
Do corredor, eu podia ouvir Cris dizer “Boa-noite, Kate” e ela responder “Boa-noite Cris”. Depois ele se dirigia para sua cama, no outro extremo do quarto.

Cumprindo a escala, fiquei dois dias sem trabalhar e, quando voltei, a primeira notícia que me deram foi “Cris morreu ontem de manhã”.
- Como?
- Um ataque cardíaco fulminante.
- Como está Kate?
- Mal.


Fui ao quarto de Kate. Ela se encontrava em sua cadeira sem se mexer, mãos no colo, olhos parados. Pegando as suas mãos nas minhas, disse:
- Kate, é Phyllis.
Ela nem piscou. Seus olhos permaneceram fitando o nada.
Segurei seu queixo com a mão e, devagarinho, virei seu rosto para que ela me olhasse.
- Kate, acabo de saber o que aconteceu com o Cris. Sinto muito.
Ouvindo o nome de “Cris”, seus olhos brilharam.Ela me olhou, confusa a princípio, aos poucos me reconhecendo.
- Cris se foi – ela sussurrou.
- Eu sei – respondi – Eu sei.

Nós nos desdobramos nos cuidados e no carinho com Kate.
Gradativamente ela retomou sua rotina. Muitas vezes, quando passava pelo seu quarto, eu a observava sentada em sua cadeira, álbum no colo, olhando com tristeza as fotos de Cris.

Para Kate, a pior parte do dia era a hora de dormir. Ela pedira para dormir na cama do marido mas, apesar de tentarmos reproduzir os gestos dele, Kate permanecia em silêncio, tristemente retraída. Uma hora depois de ter sido colocada na cama, ela continuava acordada, de olhos fixos no teto.

As semanas se passaram e a hora de dormir ainda era muito difícil. Kate parecia inquieta e insegura. Eu pressentia que devia haver uma razão para isso, mas não encontrava a causa. Então, uma noite, quando estava saindo do quarto depois de várias tentativas inúteis para tranqüilizá-la, ocorreu-me uma idéia. Voltei atrás, aproximei-me dela, acariciei seu rosto e, debruçando-me, beijei-a, dizendo “Boa-noite, querida”.

Foi como se eu tivesse aberto uma comporta. Lágrimas caíam pelo seu rosto, suas mãos segurando as minhas.
- Cris sempre me dava um beijo de boa-noite – ela disse, chorando.
- Eu sei – sussurrei.
- Eu sinto tanta falta dele, tanta falta do beijo que ele me dava na hora de dormir – Ela fez uma pausa enquanto eu enxugava suas lágrimas.
- Sem o beijo dele parece que eu não estou indo dormir. Muito obrigada por me dar um beijo.
Kate ensaiou um sorriso.
- Sabe, – ele me confidenciou – Cris costumava cantar uma canção para mim. E eu deito aqui à noite e penso isso.
- Como era?

Kate sorriu, segurou minha mão e limpou a garganta. Então ela cantou, com sua voz pequena, mas ainda melodiosa:


Me beije, meu amor, e então nos separaremos
E quando eu estiver muito velha para sonhar
Este beijo estará bem vivo no meu coração.
(*)

Texto de Phyllis Volkens

(*) When I grow too old to dream, letra de Oscar Hammerstein II.


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