Psy

"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

14.5.08

A morte





Augusto dos Anjos:
Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!


Woody Allen:
Não que eu esteja
com medo de morrer.
Apenas não queria estar lá
quando isso acontecesse.


Quevedo:
O que chamais de morrer
é acabar de morrer
E o que chamais nascer
é começar e morrer
E o que chamais viver
É morrer vivendo.


O que é a morte?
São Paulo decifrou-a:
"A morte é passagem para a vida definitiva". (2 Coríntios, 4, 16-18 e 5, 1-10)


Eurípedes:
Morrer deve ser como não haver nascido
e a morte talvez seja melhor até que a vida
de dor e mágoas, pois não sofre
quem não tem a sensação dos males.


Fernando Pessoa:
O que é a vida e o que é a morte
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as cousas que há
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer cousa aqui
Terá de mim o próprio estigma
Da sombra em que eu vivi.


Omar Khayyam:
Não temo a morte: prefiro
esse fato inelutável
ao outro que me foi imposto
no dia do meu nascimento.
Que é a vida?
Um bem que me confiaram
sem me consultar
e que restituirei
com indiferença


Morte:

"É a cessação completa e definida de vida de um homem, de um animal ou de um vegetal" (Delta Larousse);
"o ato de morrer; o fim da vida animal ou vegetal" (Aurélio).
Jânio Quadros amplia: "O fim da vida animal ou vegetal; cessação da vida; ação de morrer; termo; fim; destruição; acabamento."
A morte no Oxford Universal Dictionary não difere também: "Death: the act or fact of dying; the final cessation of the vital functions of an animal or plant"
(Morte: o ato ou fato de morrer; a final cessação das funções vitais de um animal ou vegetal).


Sob o ângulo médico-jurídico, a coisa se complica.
Morte, real ou aparente?
Existem os sinais clínicos clássicos e as provas pactognômicas para a certeza da morte?
Estão presentes as funções vitais do ser alguma delas?
A "fácies cadavérica, a imobilidade e o relaxamento dos esfíncteres" surgiram?
A morte é cerebral ou cardíaca?


Sob o ângulo religioso, são igualmente inúmeras as perplexidades.
Morreu, acabou?
A morte é o fim?
Existe a vida depois da morte?
Existe a Vida Eterna?
O limiar da morte é científico?
Que diz a Filosofia sobre a morte, os conceitos de alma, espírito, etc.?

Um verdadeiro Universo, talvez inalcançável...


Augusto dos Anjos:
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!
Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!
Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais:
Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números
A tua conta não acaba mais!


Castro Alves:
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto,
Como o viajante desse hotel funéreo.


Oliveira Ribeiro Neto:
Pois nada vale esforço, luto e choro,
serão todos cantores do seu coro,
que só não muda e se transforma em nada
a sempiterna de olhos de safira,
potente, alada e lúbrica mentira
pelo sonho dos homens sustentada.


Emílio de Menezes:
Vai, sacrílega, a morte, em sempiterna ronda
A ceifar e a espalhar o horror e o sacrilégio.
— Quem há que ao seu apelo, acaso não responda,
Seja espírito escasso ou pensador egrégio?

É uma alma juvenil? Ela, em volúpia, a sonda...
É um sábio? Ela o envenena em letal sortilégio...
É um artista? Ela o chama e erguendo a destra hedionda
Ao mundo inteiro impõe o seu domínio régio.

Francisco Otaviano:
Morrer, dormir, não mais: termina a vida
E com ela terminam nossas dores,
Um punhado de terra, algumas flores
E às vezes uma lágrima fingida.

Sim, minha morte não será sentida,
Não deixo amigos e nem tive amores!
Ou se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é pobre no mundo; que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe
Se a natureza para mim está morta!

É tempo já que o meu exílio acabe;
Vem, pois, ó morte, ao nada me transporta!
Morrer, dormir, talvez sonhar, quem sabe?


Goethe:
A Morte é uma impossibilidade
que, de repente,
se torna realidade.


José de Anchieta:
Como vem guerreira
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!

Suas armas são doença,
com que a todos acomete;
por qualquer lugar se mete,
sem nunca pedir licença
[...]

Por muito poder que tenha,
ninguém pode resistir;
dá mil voltas sem sentir,
mais ligeira que uma azenha,
quando Deus manda que venha
[...]

A uns caça quando comem,
sem que engulam o bocado;
outros mata no pecado,
sem que gosto nele tomem,
quando menos teme o homem
[...]

A ninguém quer dar aviso,
porque vem como ladrão;
[...]

Quando esperas de viver

longa vida, mui contente,
ela entra, de repente,
sem deixar-te perceber,
quando mostra seu poder
a morte espantosa.
Como vem guerreira
e temerosa.


Metastásio:
Não é verdade que a morte
é o pior de todos os males,
é um alívio dos mortais
que estão cansados de sofrer.


Bocage:
Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,
Que a vida para os tristes é desgraça,
A morte para os tristes é ventura!


Baudelaire:
É um anjo que segura em seus dedos magnéticos
O sono e mais o dom dos êxtases mais poéticos,
Que sempre arruma o leito aos pobres...


Sofocleto:
Os que mais morrem
são os que não têm onde cair mortos.


Homero:
Eia, meu amigo, morre tu também!
Por que lamentas a sorte?
Também morreu Pátroclos, que valia
muito mais que tu!


Nabokov sofisma:
Um silogismo:
os outros morrem.
Mas eu não sou outro;
assim, não morrerei.


Uma historinha inglesa:
Nasceu numa segunda
Batizou-se numa terça
Casou-se numa quarta
Adoeceu numa quinta
Piorou numa sexta
Morreu num sábado
Enterrou-se no domingo
E este foi o fim de Solomon Grundy.


Cruz e Souza:
Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Dever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
Traia, sequer, o teu Sentir latente.

Morre com a alma leal, clarividente,
Da Crença errando no Vergel florido
E o Pensamento pelos céus brandindo
Como um gládio soberbo e refulgente.


Casimiro de Abreu:
Que tem a Morte de feia?
Branca virgem dos amores
Toucada de muitas flores
Um longo sono nos traz;
E o triste que em dor anseia
— talvez morto de cansaço —
vai dormir no seu regaço
como num clausuro de paz.


Expedito Ramalho de Alencar:
Morte
Término da vida, cessação
De funções orgânicas vitais.
Um nada, vazio, escuridão,
Sumiço d’amigos e rivais.
Desaparecimento do ser.
A negação do querido ente.
Eliminação do pretender
Ter existência permanente.


Vinícius de Morais:
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca esperada
Ela que é na vida
a grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida!


Arita Damasceno Pettená:
Quando em mim tudo for silêncio
e a própria via esvair-se
nas esteiras das águas flutuantes,
hei de buscar, no primeiro ancoradouro,
o porto seguro para meus sonhos todos.
Que importa que haja ondas revoltas,
ameaçando um casco acorrentando.
Quero respirar, no último momento,
a esperança diluindo-se em espumas,
espumas desmanchando-se em esperanças.


Florbela Espanca:
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce lago
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má morte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
má fada me encantou e aqui fiquei
à tua espera... quebra-me o encanto!


Sylvia Celeste de Campos:
Morrer... Não sonhar mais. Esquecer minha vida
Tão triste, tão vazia...
Nunca mais ver o fim de uma ilusão querida...
Não pensar na tristeza ou na alegria...

Não viver, nunca mais, de uma linda esperança:
Ser para alguém, um dia, um tesouro encantado...
E em paz há de ficar um coração de criança,
Que sofreu e que amou, sem nunca ser amado...


Guilherme de Almeida:
Uma sombra perpassa, toda vagarosa,
pelo campo amargo do acônito e cicuta.
Ela abre largas asas de carvão e oculta
um corpo cor de medo na veste ondulosa.

Todo o seu grande ser, belo como um lenda,
tem perfumes subterrâneos de argila e avenca.
Nas suas mãos frias e embalsamadas de óleos
há dez unhas agudas que vazam os olhos.
Ela traz asfódelos e heléboros bravos
em torno dos cabelos negros como víboras.
Ela ri sempre: e o seu riso de dentes alvos
brilha como um punhal mordido entre as mandíbulas.

Os homens fortes sorriem quando ela chega:
os poetas, à sombra ilustre da árvore grega;
os heróis, sob as asas de ouro da vitória.
— Porque ela talha as estátuas e a engendra a glória!


Fernando Gigliotti Paschoal:
Morte que me estremece
Me olhe com suas promessas
Troque meu medo pelo prazer
Me faça viver de verdade

Morte de tantas vozes
Tantos desenhos, tantas cores
Morte louca, morte rouca
Morte de platina

Venha me livrar da agonia
Morte traga-me a imunidade
Livra-me da doença do mundo
Quero dormir ao seu lado.


Manuel Bandeira:
Fiz tantos versos a Teresinha...
Versos tão tristes, nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
Era tão pouco! Não era glória...
Nem era amores... Nem foi dinheiro...
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!

Para outras Santas voltei os olhos.
Porém as Santas são impassíveis
Como as mulheres que me enganaram.
Desenganei-me das outras Santas
(Pedi a muitas, rezei a tantas)
Até que um dia me apresentaram
A Santa Rita dos Impossíveis.

Fui despachado de mãos vazias!
Dei volta ao mundo, tentei a sorte.
Nem alegrias mais peço agora,
Que eu sei o avesso das alegrias.
Tudo o que viesse, viria tarde!
O que na vida procurei sempre
— Meus impossíveis de Santa Rita —
Dar-me-eis um dia, não é verdade?
Nossa Senhora da Boa Morte!


Castro Alves:
Morrer – é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nos guia na tormenta:
Condenado – escutar dobres de sino,
– Voz da Morte, que a morte lhe lamenta –
Ai! morrer – é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher – no visco
de larva infame do sepulcro fundo.

Ver tudo findo... só na lousa um nome,
Que o viandante a perpassar consome.

Eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
um mal terrível me devora a vida:
[...]

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínico da vida – novo Tântalo –
O vinho do viver ante mim passa.
Sou dos convivas da legenda hebraica,
O estilete de Deus quebra-me a taça.

É que até a minha sombra é inexorável,
Morrer! Morrer! Soluça-me implacável!


Chico Xavier, Parnaso do além túmulo
No extremo pólo da vida
Diz a Morte: — "Humanidade,
Sou a espada da Verdade
e o Têmis do mundo sou;
Sou balança do destino,
O fiel desconhecido,
Lanço Cômodo no olvido
e aureolo a fronte de Hugo!

O cronômetro dos séculos
Não me torna envelhecida;
Sou morte — origem da vida,
Prêmio ou gládio vingador.
Sou anjo dos desgraçados
Que seguem na Terra errantes,
Desnorteados viajantes
Dos Niágaras da dor!

Também sou braço potente
Dos déspotas e opressores,
Que trazem os sofredores
No jugo da escravidão;
Aos bons sou compensação,
Consolo e alívio aos precitos,
E nos maus aumento os gritos
De dores e maldição.

Sepultura do presente,
Do porvir sou plenitude,
Da alegria sou saúde
E do remorso o amargor.
Sou águia libertadora
Que abre, sobre as descrenças,
O manto das trevas densas
E sobre a crença o esplendor.

Desde as eras mais remotas
Coso láureas e mortalhas,
E sobre a dor das batalhas
Minha asa sempre pairou;
Meu verbo é a lei da Justiça,
Meu sonho é a evolução;
Meu braço a revolução,
Austerlitz e Waterloo.

Homem, ouve-me; se às vezes
Simbolizo a guilhotina,
Minha mão abre a cortina
Que torna o mistério em luz;
E por trabalhar com Deus,
Na absoluta equidade,
Sou prisão ou liberdade,
Nova aurora ou nova cruz".


Alcy Gigliotti
A morte, essa descrença
enganosa, esse medo
conosco no nascimento,
quase crônica doença,
perde todo o seu segredo
só quando chega o momento
de com ela conviver.

Parece, então, corriqueira,
a Verdade verdadeira
do seu lugar neste mundo:
— Não é feia, indesejada,
não se ama nem se odeia!
É um conselho fecundo
e mais uma companheira
conosco junto, na estrada
que às vezes cansa ou enleia!

Ah! a morte!
É ponte, meio ou passagem
onde termina a viagem
por estes páramos plebeus.
Para os bons, é a certeza
do encontro da realeza
no doce aconchego de Deus.

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