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"Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida" "Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar" "Clarice Lispector"

19.4.09

Amor: Verso e Prosa










Olavo Bilac - "Inania Verba"


Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava;
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?







Francisco Moniz Barreto - "Improviso"

Ver... e do que se vê logo abrasado,
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!

Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;

Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;

O que isto é, a todos nós ocorre:
- Isto é amor, e deste amor se vive!
- Isto é amor, e deste amor se morre!







Olegario Mariano - "Deslumbramento"

É amor? Não sei. Essa intranqüilidade,
esse gozo na dor, essa alegria
triste que vem de manso e que me invade
a alma, enchendo-a e tornando-a mais vazia;

Este cansaço extremo, esta saudade
de uma coisa que falta à Vida . . . O dia
sem sol, as noites ermas, a ansiedade
que exalta e a solidão que anestesia,

É amor. Egoísmo de sofrer sozinho,
de as penas esconder do humano açoite,
de transformar as pedras do caminho

Em carícias sutis para colhê-las
e andar como um sonâmbulo, na noite
escancarando os olhos às estrêlas...







Alceu Wamosy - "Duas Almas"

Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho.
Vives sozinha sempre e nunca foste amada...

A neve anda a branquear lividamente a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã quando a luz do sol dourar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, horrenda e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...







Florbela Espanca - "Fanatismo"

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”







Florbela Espanca

Meu amor, meu Amado, vê…repara;
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até o fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenufares…

Deus fez-me atravessar o teu caminho…
– Que contas dás a Deus indo sózinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares?






Florbela Espanca - "Amiga"

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa, a mim?!O que quiseres
É sempre um sonho bom!Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascessemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!...Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei prà minha boca!...







Eugenio de Castro - "Soneto"

Tua frieza aumenta o meu desejo:
fecho os meus olhos para te esquecer,
mas quanto mais procuro não te ver,
quanto mais fecho os olhos mais de vejo.

Humildemente atrás de ti rastejo,
humildemente, sem te convencer,
enquanto sinto para mim crescer
dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei
que outro feliz, ditoso como um rei
enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
amam metade os que amam com esprerança,
amar sem esprança é o verdadeiro amor.







Ana Amélia Mendonça - "Mal de Amor"

Toda pena de amor, por mais que doa,
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.

A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;

Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,

Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.







Eugenio de Freitas - "Pressentimento"

Ver-te à distância, sem poder beijar-te;
sentir-te o corpo de mulher faceira;
ter-te comigo a sós, nalguma parte,
sem esconder a dor, por mais que eu queira...

Noutras buscar prazer, sem que eu me farte;
sofrer saudades mil da Companheira,
que sempre há de inspirar-me as obras de arte,
em que eu traduzo minha vida inteira.

Eis o resumo desde ardor sem cura;
da provação, embora merecida,
que inexoravelmente me tortura.

No entanto, ao fim desta áspera subida,
hei de encontrar-te em breve, porventura,
ébria do amor que ao sonho nos convida.








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No amor, nem sempre são as faltas o que mais nos prejudica, mas sim a maneira como procedemos depois de as ter cometido. "Oví­dio"